2. ENTREVISTA 20.2.13

MIGUEL NICOLELIS - "ESTAMOS A CAMINHO DE CURAR A CEGUEIRA"

Neurocientista brasileiro desenvolve uma tecnologia que abre a possibilidade de recuperar a viso e a audio em humanos
 por Juliana Tiraboschi

 FAANHAS - Depois de fazer um macaco acionar um brao robtico com o crebro, neurocientista transforma ratos nos nicos mamferos capazes de sentir a luz infravermelha
 
O neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis no se cansa de surpreender. Em 2011, fez um macaco controlar um brao robtico apenas com o pensamento, feito indito na histria da cincia e que entrou na lista das tecnologias que iro mudar o mundo, elaborada pelo Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Nesta semana, uma das ramificaes da revista britnica Nature publicou a nova e surpreendente pesquisa de Nicolelis: ele e seus colegas Eric Thomson e Rafael Carra fizeram ratos sentir a luz infravermelha, invisvel para os mamferos. Dessa forma, criaram um novo sentido alm dos cinco naturais: viso, audio, paladar, tato e olfato. To importante quanto a descoberta so os novos caminhos abertos por ela. Fazer com que uma parte do crebro aprenda um novo sentido indica que  possvel recuperar capacidades perdidas, utilizando a mesma tcnica. Para curar determinados tipos de cegueira, bastaria religar os nervos pticos em uma parte do crtex cerebral que no estivesse avariada. O mesmo poderia ser feito com os demais sentidos. 

Professor de neurobiologia, engenharia biomdica, psicologia e neurocincia e codiretor do Centro de Neuroengenharia da Universidade de Duke, nos EUA, e pesquisador do Instituto Internacional de Neurocincia de Natal Edmond e Lily Safra (INN), Nicolelis fala na entrevista a seguir sobre esse estudo e projetos como o Andar de Novo, que engloba uma srie de pesquisas relacionadas  ligao entre crebro e mquina e ao uso da atividade eltrica produzida pelos neurnios para controlar dispositivos robticos como braos e pernas artificiais. Por trs desse plano est o grande sonho do cientista: fazer um tetraplgico brasileiro voltar a andar com a ajuda de um exoesqueleto e dar o pontap inicial na Copa de 2014.

Est mantido o plano de fazer um tetraplgico dar o pontap inicial na Copa. Para a neurocincia,  como um pouso em Marte"

"A Cidade do Crebro est atrasada. O governo do Rio Grande do Norte no d relevncia para investimento em educao cientfica"

Isto - Nessa nova pesquisa, vocs fizeram com que os ratos sentissem a luz infravermelha como uma informao tctil?

Miguel Nicolelis - Exatamente. Por isso dizemos que  como se eles tocassem a luz. Induzimos os animais a reconhecer uma luz invisvel como se fosse uma sensao do tato. 

Isto - E os animais demoraram quanto tempo para aprender esse novo sentido?

Miguel Nicolelis - Cerca de 30 dias. E ns notamos que os ratos mudaram seu comportamento. Eles comearam a fazer gestos com a cabea que se parecem com movimentos de morcego, escaneando o ambiente em busca da luz. Eles estavam em uma sala escura, no enxergavam a luz, mas, toda vez que chegavam prximo dela, sentiam mais a sua intensidade tctil. Assim, percebemos que eles desenvolveram uma nova sensao e uma estratgia para processar esse estmulo. 

Isto - Vocs esperavam esse resultado ou foi uma surpresa?

Miguel Nicolelis - Foi surpreendente. Primeiro pela rapidez com que aconteceu a mudana e depois pela forma como o animal usa esse sentido de uma maneira eficiente. Os ratos passaram de movimentos aleatrios em busca de comida a quase 100% de acerto.

Isto - Esse resultado mostra que o crebro pode ser bem mais plstico do que se imagina?

Miguel Nicolelis - Sim, sem dvida. Ningum esperaria que um pedao de crtex tctil fosse capaz de criar uma codificao de uma luz invisvel. Essa foi uma grande demonstrao de que, mesmo durante a fase adulta da vida, o crebro  capaz de criar um novo modelo interno do mundo exterior, mesmo que seja de um sinal que o corpo nunca experimentou. 

Isto - E esse novo modelo seria um novo sentido?

Miguel Nicolelis - Isso mesmo. No temos um nome para isso, mas  como se tivssemos criado uma mistura de viso e tato, parecido com um fenmeno raro chamado sinestesia. Ele acontece com pessoas que ouvem um tipo de som e enxergam determinadas cores, uma mistura de duas modalidades de sentido.

Isto - E vocs pretendem dar continuidade a essa pesquisa?

Miguel Nicolelis - Sim, j temos um macaco que consegue sentir luz infravermelha. Podamos ter testado qualquer outro tipo de onda eletromagntica: de rdio, raio X ou magntica propriamente dita. Escolhemos a infravermelha porque ela no interfere com os registros cerebrais. Agora estamos pensando em iniciar testes com ondas de rdio. 

Isto - O sr. acha que essa tcnica poder ser aplicada na criao de novos sentidos em humanos? 

Miguel Nicolelis - Acho que sim. Com os mtodos no invasivos para estimular o crebro que esto comeando a aparecer,  possvel. Imagine poder aumentar os canais sensoriais dos seres humanos. Iria ampliar bastante nossa capacidade de ver o mundo. Imagine poder ter viso de raio X, sentir ondas de rdio, infravermelhas, campo magntico. Teramos uma capacidade de interpretar o mundo alm dos limites do corpo.

Isto - Como a aplicao dessa tcnica pode ajudar na recuperao de viso e audio em pessoas cegas e surdas? H um potencial de cura dessas deficincias?

Miguel Nicolelis - Em pessoas que tiveram leses no crtex e ficaram cegas, por exemplo, sim, seria possvel reverter o quadro, porque voc pode usar o crtex para outras coisas. Em teoria, poderamos tratar qualquer dficit sensorial com esse tipo de abordagem.  outra linha de pesquisa que vai se abrir. 

Isto - O sr. acha que a cincia est prxima disso?

Miguel Nicolelis - Esses trabalhos comeam a coloc-la prxima disso.  uma outra porta que ningum tinha pensado em usar at esse momento. Ainda no d para estimar quo prximos estamos da cura da cegueira ou da surdez por meio dessa tcnica, mas as coisas esto acontecendo muito rapidamente. E  um incentivo muito grande para os pesquisadores saber que um pedao de crtex no visual pode ser usado para se transformar nesse estmulo. Agora temos outra alternativa de pesquisa.  

Isto - Em que estgio est o projeto Andar de Novo?

Miguel Nicolelis - Estamos trabalhando dia e noite, aqui na Universidade de Duke, no Instituto de Neurocincias em Natal (RN) e na Universidade Tcnica de Munique. Recebemos pedidos de adeso de diversas instituies do Brasil e do resto do mundo que querem colaborar. Agora estamos combinando todos os registros cerebrais que criamos e construindo o exoesqueleto. J temos um prottipo para macacos, vamos test-lo nos prximos quatro meses. O plano  simular uma leso medular no animal com uma anestesia que far com que ele fique paralisado da cintura para baixo por seis horas para testar o equipamento.

Isto - Est mantido seu plano de levar um tetraplgico a dar o pontap inicial na Copa de 2014?

Miguel Nicolelis - Sim, cientificamente estamos em dia com a pesquisa. Estamos comeando o processo de selecionar pacientes no Brasil e montar a equipe clnica. O projeto j  conhecido no mundo inteiro. Para a rea de neurocincias  como ir para a Lua, como um pouso em Marte. 

Isto - E como anda o projeto da Cidade do Crebro, que vai abrigar o Instituto de Neurocincias e uma escola de cincias?

Miguel Nicolelis - Estamos esperando a Universidade Federal do Rio Grande do Norte cumprir a promessa de terminar o campus no prazo. O projeto est atrasado em vrios anos.  uma obra muito grande. A parte de alvenaria dos dois prdios est pronta, agora faltam as obras de infraestrutura. Esperamos que eles sejam entregues no ano que vem para podermos iniciar a nossa escola em perodo integral para trs mil alunos e levar o Instituto de Neurocincias para l. Gostaramos de inaugur-lo antes da Copa. 

Isto - Como vai funcionar essa escola?

Miguel Nicolelis - Ser a primeira instituio de ensino que vai comear no pr-natal da me. Ns j temos um programa de pr-natal h cinco anos na cidade de Macaba (RN), onde a mortalidade materna era de 90 bitos a cada 100 mil partos. Estamos avaliando os nmeros, mas reduzimos dramaticamente esse ndice, e nosso trabalho virou referncia para o Ministrio da Sade. Essas so as mes dos nossos futuros alunos. A fase crucial de formao do crebro  no perodo pr-natal. Ao longo desses anos fomos introduzindo tcnicas para que os bebs nasam com seu potencial neurobiolgico intacto. Quando a escola abrir, essas crianas tero um perodo de currculo oficial e um dedicado  educao cientfica. Isso acontecer desde o berrio at o final do ensino mdio. 

Isto - H trs anos o sr. deu uma entrevista criticando a falta de incentivo oficial a esses projetos. A situao continua a mesma?

Miguel Nicolelis - Continua muito parecida. O governo do Rio Grande do Norte no d muita relevncia para esse tipo de investimento em educao cientfica. Mas j nos conformamos com isso, e os recursos do governo federal esto sendo suficientes.

Isto - Em 2011, o sr. rompeu com o cofundador do Instituto de Neurocincias Sidarta Ribeiro, que deixou o projeto junto com outros pesquisadores da UFRN. Como est a situao hoje? 

Miguel Nicolelis - O que aconteceu  que essas dez pessoas que saram do INN no aceitavam as normas impostas pelo instituto e pelo governo federal. Em qualquer lugar, voc tem que seguir regras. Por exemplo, voc tem que esperar o fabricante vir instalar um equipamento  se abrir antes, perde a garantia , tem que aprovar protocolos, as pessoas que acessam o instituto tm de ser identificadas e existem questes de segurana em relao  propriedade intelectual. 

Isto - Uma das reclamaes do grupo que se desligou girava em torno da dificuldade de acesso de pessoal da UFRN ao instituto.

Miguel Nicolelis - Imagina... Eles tinham uma lista de 90 nomes que nunca se materializou. A mdia de presena de gente da universidade era de apenas 12 pessoas por dia. Quando percebemos que o conceito deles no batia com o nosso, para ns foi muito tranquilo que eles sassem. Ficamos surpresos com o estardalhao que isso gerou. E agora, quase dois anos depois, todas as reivindicaes que eles fizeram, como a retirada de equipamentos, foram negadas pelas agncias reguladoras. A atitude deles demonstrou imaturidade e falta de seriedade. Essas coisas acontecem em todo lugar e no viram notcia de jornal.

